Rotina

O que é a vida? Me pergunto isso diariamente e você vai se acostumar comigo te fazendo essa pergunta, eventualmente. Conheço muitas pessoas talentosas, mas seus talentos estão guardados na rotina, na vida privada, em uma roda de amigos, no compromisso com a conta de luz, na falta de sorte, na falta de tempo. O melhor frango que eu já comi não é famoso e não custou R$ 300,00 reais. Uma das vozes mais lindas que eu já escutei não está nos palcos fazendo shows. Van Gogh se suicidou sem saber que era bom no que fazia e que seria precursor de algo. A vida é besta, simples, feita de pequenas e repetidas ações diárias com um toque de criatividade e sorte. É nesse mais do mesmo de todo dia que a passagem do tempo gosta de descansar. Então, se você conseguir encontrar beleza no cotidiano, vai ser limão com açúcar.

A rotina é fascinante, ou deveria ser. Dia desses perguntei a uma amiga sobre as novidades. Ela se mudou para outro país para levar uma vida oposta ao que ela conhecia até então. Acho que o mundo cobra desse tipo de pessoa grandes feitos. São muitas as expectativas sobre vivenciar algo próximo a “descoberta da pólvora”. Bem, não sei quanto à descoberta da pólvora, já que estava mais interessada em saber sobre a temperatura da água no banho que ela tomava, ou melhor, se ela estava conseguindo tomar banho, a quantas andava o cabelo cacheado na privação das gororobas que passamos, se ela estava comendo e o que, sobre as árvores, sobre os novos amigos, sobre o vaso sanitário, sobre a solidão e o pôr do sol.

Toda a ilustração tem uma história. A Rotina, pra você.

Ilustração feita em um Moleskine com folhas lindamente inapropriadas para o uso da aquarela. Sou boa nisso. Comecei rascunhando a lápis e na sequência caneta naquim da Faber. Aquarela Winsor & Newton Cotman e pincel Keramik por cima. Lápis de cor Carand’ache Classicolor e Faber Polychromos para finalizar.
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Sobre as marcas que estão nesta descrição, gosto delas, mas isso não quer dizer que elas sejam as melhores pra você. Eu as uso, mas poderiam ser outras com resultado semelhante. A diferença está em quem usa, então, não tenha medo de testar. Olha o Vik Muniz pintando com calda de chocolate.

Quem sou eu?

Ninguém para a maioria das pessoas, mas alguém para um microscópico punhado de gente. O suficiente para preencher aquele vazio que a existência causa nos emotivos. Mentira, prometi que não usaria muitas máscaras neste espaço. Existe um vazio e ele normalmente aparece a noite junto com a Samara. Samara é terrível!! Conhece?

Bem, o ponto é que pelo menos sei que sou pó de estrela e isso me conforta – e me aterroriza, já que quero acordar e constatar o óbvio. Que tudo isso não passa de uma simulação Matrix. Fora isso sou designer e ilustradora, irmã de Ju e Pati, filha de Naza e Celso, esposa e melhor amiga do Werther, tia de Teo e Lisa e por aí vai. Família unida, sabe como é? Pé de Buscapé, enraizada no mesmo bairro, na mesma quadra. Um nojo! Hello Kitty ficaria enojada.

Qual é o meu objetivo com este blog tendência que chegou atrasado uns 257 anos? Falar dos projetos, das ilustrações, da rotina de um estúdio em casa, de ser designer, do material que eu uso, da vida, falar…sem pressa.

Essa sou eu em frente a um velho mural que já viu dias com mais colágeno e cores vibrantes. E assim como eu, ele tem rugas. Amo texturas. 🙂